Archive for the ‘HQ’ Category:
Find 2 x 2

Neste sábado, dia 16 de agosto, aconteceu na UERJ o FIND (Fórum Internacional de Design e Tecnologia Digital) e mais uma vez compareci para assistir as palestras de convidados nacionais e gringos.
No geral achei a organização do evento boa, mas um ou outro detalhe segue digno de nota: o evento foi realizado num local muito bom, o Teatro Odylo Costa, na UERJ, com capacidade para 1.106 lugares, o que garantiu que todos assistissem as palestras sentados (ao contrário de uma edição passada em que para ver o Sagmeister, muita gente ficou em pé ou sentado no chão). Mas faltou um pouco de sinalização para o local: uns banners conduzindo o público da entrada da UERJ até o auditório teriam ajudado bastante, vi muita gente pedindo informação pra chegar no local (eu inclusive).
A questão da tradução simultânea foi boa também, e vi pouca gente trocando os fones, o que demonstra clara evolução nessa área.
Sobre o que nos levou até o local: palestrantes, achei que o placar foi 2 x 2: das 4 palestras do dia, duas foram boas e 2 não foram, seja porque não falaram nada de novo ou porque se perderam do foco.
Chris Baylis - Clico, logo existo
Palestra boa, sobre campanhas on line foi bem interessante e mostrou algumas coisas do anúncio da TV Philips Cinema 21:9. Achei todos os argumentos válidos e bem expostos, com destaque para a crítica feita ao mercado brasileiro, onde “criativos” (odeio esse termo) gostam de centralizar o processo de geração de peças de comunicação para poder posar de autores máximos, ao contrário dos gringos, que se cercam dos melhores profissionais em cada ramo, para juntos obter o melhor resultado possível num anúncio, vídeo, foto ou o que for. Realmente o ego pode ser um problema no mercado de comunicação. Só não concordei quando ele disse que toda campanha precisa de uma ação on line para funcionar. Oliviero Toscani é um dos maiores comunicadores do mundo e fez isso a custa de, pasmem, cartazes (peça gráfica em extinção). Então não acho que tudo dependa da web para existir ou funcionar, mas como bem disseram meus amigos da 288, é nesse momento em que o cara puxa a sardinha pro lado dele . . .
Masa - Criatividade digital, posicionamento e promoção
Palestra fraca, com dicas óbvias de auto-promoção que já são praticadas por muitos alunos de 5º período de qualquer faculdade, então para profissionais, esperava que ele falasse mais.
A questão de “posicionamento” poderia ter sido abordada de várias formas: como se apresentar perante um cliente e o mercado (metodologia, sistema de cobrança, formalidade etc), que direcionamento ideológico move um profissional, que tipo de restrições morais um profissional se impõe e como isso se reflete na busca por trabalho, que tipo de encomenda nós devemos ou não aceitar, enfim, muitos recortes possíveis. De tudo isso ele só disse que prefere trabalhar para jovens e com esportes ou cultura. Ok, bom nicho muito agradável de atender, mas poderia ter falado de forma mais ampla.
O que se viu foi um relato de como ele chegou onde chegou, direito a falar (várias vezes) que fez trabalhos de um dia pro outro, como se isso fosse uma vantagem estratégica ou projetual. Falar num evento desses, pra tanta gente que o assiste, que um cliente pediu um trabalho de um dia pro outro e que isso foi aceito, sem explicar como se negocia isso, se é custo por hora, taxa de urgência, qual o custo a oferecer ao cliente por pedir algo com tão pouco planejamento, não sei mas acho meio nocivo, não? Que mentalidade vai se multiplicar a partir ed um discurso desses?
Mehdi Saeedi - CMYK Iraniano
Palestra ótima. O cara arrebentou e nem falou o tempo todo, porque metade do tempo foi destinado ao tradutor que o atendia na hora. Começou meio devagar porque o tradutor se limitava a repetir em português as palavras e não sua entonação, sem carga emocional, o que deixava o discurso meio cru e sem vida, mas o trabalho do cara é tão belo que isso sumiu na poeira. Lindas peças tipográficas e bem engajadas também.


veja mais no site dele clicando aqui.
Raphael Vasconcellos - Produto x Propaganda: quem mandará quando for tudo digital?
Palestra fraca. Valeu pelos momentos iniciais em que um problema técnico no som levou o palestrante a fazer uma “gambiarra” e aproveitar o microfone para captar o áudio direto do computador para enviar ao público. Jeitinho brasileiro utilizado para o bem. O tema não foi abordado, porque ao invés de falar sobre como os produtos serão acessados num mundo cada vez mais digital, como se dará o consumo e a busca por informação, o que se falou foi sobre como destacar um produto, criando em torno dele uma historia que faça com o que o observador tenha interesse sem necessariamente ser abordado por um anúncio. Ok, isso é válido, mas esse argumento já é um tanto batido e está em voga há uns 10 anos. Envolver um produto/serviço com significados extras? Foi a partir dessa idéia que se criou a frase preferida dos marketeiros: “agregar valor”.
Enfim, para não dizer que o evento teve aproveitamento de 50%, uma das melhores palestras (só perdeu pro iraniano), foi a do mestre de capoeira (se alguém souber o nome, me avise), que veio até o púlpito agradecer a Arteccom pelo apoio ao projeto social dele (recuperação de crianças marginalizadas a partir da capoeira, esportes, música etc), onde ele demonstrou todo seu conhecimento de pedagogia infantil e disse que tira a violência do cotidiano da criança com muito carinho (e mostrou o tamanho da mãozada que leva esse carinho todo rssss). Espetacular!
Foi bom também rever meus amigos (Carol Hoffman, Guilherme Howat e Guy Leal, Leonardo Caldi, Cassia e Soninha) e claro, alguns dos meus alunos participando da gravação do evento.
A Piada Mortal da Opera Gráfica

Ganhei* de aniversário uma edição super especial de Batman - A Piada Mortal, editada em formato pocket e em preto & branco pela Opera Graphica Editora. Capa dura com hot stamping, encadernação de qualidade, impressão boa. Só senti falta de extras, textos introdutórios e etc mas aí talvez não coubesse numa versão pocket. Um trabalho de primeira do editor Roberto Guedes. Pra não dizer quebnão reclamei de nada, a guarda (página que liga os vários cadernos impressos à capa dura) podia ser de outra cor que não o verde escolhido, mas tudo bem.
Não sei exatamente como eles puderam publicar essa história (também não está muito claro de quando é essa publicação) que atualmente está licenciada pela Panini (que acabou de republicá-la tmbém em capa dura, tamanho normal e à cores) mas esta edição, baseada num formato francês, vale muito a pena.
Textos de Alan Moore dispensam maiores comentários além de: tudo que ele toca vira ouro. Não lembro de ter lido uma história ruim do mago vetusto (até em Wild Cats ele conseguiu fazer milagre inserir um pouco de substância em uma série até então tosca).
A Piada Mortal conta a origem do Coringa, humanizando a personagem e aproximando sua história da vida de qualquer pessoa comum, ainda que recorra a criação de alguns tipos clichês, que se mesmo assim se tornam totalmente críveis nas mãos do roteirista inglês.
Estão ali os dramas da pobreza, a cobrança auto-imposta, a responsabilidade com a família, a ingenuidade, o despreparo, a tentação, medo, corrupção e perdição. A densidade que Alan Moore confere ao Coringa, tornando ao mesmo tempo sádico e ultra-violento (no presente) e humano, falho e digno de pena (no passado) são de uma grandeza poucas vezes vista nas HQs, até pelo número reduzido de páginas da história, o que mostra que um bom autor consegue contar uma boa história, mesmo em poucas páginas.


A relação de Batman com o Coringa é várias vezes transformada ao longo da história, a começar pela entrada do morcego no Asilo Arkhan para falar do futuro dos dois, da violência desenfreada que os levará á morte. Depois na ultra-violência das torturas, que faz com que a sede de vingança se interponha no caminho da justiça/lei e por fim, nos momentos finais, de (quase) redenção e no diálogo que dá título à história.
A arte de Brian Bolland é igualmente rica e retrata com beleza e objetividade os fatos narrados. As expressões faciais, a perfeição da anatomia, a caracterização (cenários, indumentária, enquadramentos) é perfeitamente desenvolvida para que os constantes saltos no tempo, que entrelaçam os dados apresentados, sejam perfeitamente percebidos pelo leitor, sem atropelos nem qualquer situação forçada.

Começar a (re)ler essa edição, depois de ter assistido Cavaleiro das Trevas no cinema e lembrar da memorável caracterização de Heath Ledger como Coringa, significa (por uma ínfima fração de segundo) duvidar que algo de bom e diferente possa ser feito com o palhaço do crime, mas ao começar a jornada que Moore preparou, logo se vê em que fontes os roteiristas do filme beberam para chegar a um resultado tão bom e com certeza A Piada Mortal é uma delas.
Destaque para as cenas de tortura do Comissário Gordon nas mãos de uns anões bizarros, para a melancolia do Coringa ao repassar sua vida e para a reviravolta na vida de Bárbara Gordon (não vou entrar em detalhes pra não estragar a leitura de ninguém).

*Valeu Guilherme!
Homem de Ferro x Bruce Lee
Tentando imaginar como seria essa briga? Agradeça então ao animador canadense Patrick Boivin, que não só pensou como fez!
Via Jovem Nerd feat. Guilherme
Watchmen - o filme
Depois de 10 anos de espera, vi o filme da história que todos diziam ser infilmável e sabe de uma coisa? Estavam certos . . .
Para essa história só havia duas saídas dignas: humildade em admitir que não funciona no cinema ou fazer no mínimo 2 filmes. Muitas camadas de informação que se perderam são essenciais para a criação do clima da história.
Uma diferença definitiva entre cinema e HQ (e Alan Moore sabe como ningúem explorar isso) é que numa HQ o leitor pode consultar a história toda num piscar de olhos, tirar dúvidas, reler, marcar páginas para comparar e sem perder o ritmo narrativo e isso possibilita espalhar referências de todos os tipos ao longo da história. Num filme isso não é possível, não flui tão bem e a narrativa deve ser outra, mais comedida nesse sentido. Para Watchmen que é recheada de auto-citações, acaba havendo uma perda sensível de conteúdo.
Gostei de uma maneira geral: os diálogos são bons (também, qualquer coisa que se use da HQ é boa, fica fácil), as cenas de ação são espetaculares, as caracterizações físicas são quase perfeitas, as caracterizações psicológicas tem seus vacilos mas são legais também.
Das personagens, Roscharch, Silk Spectre filha e Comediante ficaram perfeitos. Ozymandias ficou um tanto afetado, Moloch precisava ser mais fraco (até pelo cancer), Nite Owl precisava ser mais gordo (pra materializar a decadência), mas valeu.
Mudar o fim da história e retirar da narrativa todas as cenas, personagens e sub-tramas que explicam o fim original fez com que o filme se tornasse só mais um. Bem feito aos olhos de não leitores mas não sei se chega a ser revolucionário. A história original destroçou clichês e essa recorreu a alguns, ainda que de leve, mas especificamente o fim ficou meia boca.
A trilha sonora é muito boa, nas músicas anos 70 e 80 e nas instrumentais também, que até me lembraram Blade Runner.
As cenas de luta ficaram muito boas, o Snyder entende de coreografia! Ele ainda se dá ao luxo de colocar em slow motion e mostrar em detalhes!
No geral, fiquei feliz que tenham feito, dizem que a versão do diretor, que virá pro DVD inclusive com os Contos do Cargueiro, terá 1,5h a mais e que nelas aparecem essas lacunas e pessoas. Vamos ver.
Adendo 01: o Dr Manhatan é muito rasgado, parece que ele não relaxa nunca e isso ficou muito estranho, as melhores cenas dele são de terno e gravata ou em close.
Adendo 02: o diálogo do Dr Manhatan durante a morte do pres. Kenedy NÃO PODERIA TER FICADO DE FORA. Aquilo daria um apelo emocional ao descolamento do Dr. em relação aos humanos que não se consegue só com a cena do Comediante reagindo a vietnamita que lhe cortou o rosto.
Adendo 03: Dr Manhatan falando pro Hollis Mason que também iria mexer na indústria de automóveis é outra que não poderia ter ficado de fora, porque mostra como se vive a sombra dele e isso ainda posiciona o Mason para todas as suas cenas, que também ficaram de fora e quem leu sabe do que eu estou falando . . .
Adendo 04: quem deu superforça pra todos os caras?
Adendo 05: não mostrar nada do passado do Roscharch é uma pena, porque nunca mais veremos essa personagem no cinema.
Adendo 06: quem teve a idéia de transformar a máscara do Roscharch numa meia?
Enfim, de zero a 10 dou nota 8 pro filme, e para a HQ dou nota 15.
A HQ revolucionou o mercado na época mas o filme não passou muito perto disso agora. Faltou mostrar mais de como era ridícula a caçada aos bandidos e como foram banais as mortes dos vigilantes. faltou mostrar isso para que eles ficassem mais humanos e críveis.
Faltou ler mais vezes “Who Watches the Watchmen” nas paredes . . .
SPOILERS (Leia por sua conta e risco)
Bubastis, o gato geneticamente alterado, que materializa as experiências genéticas que dão origem ao monstro, sem esse monstro ficou no meio do caminho, parecendo mesmo charminho de metrossexual.
Na boa: monstro criado artificialmente a partir da cabeça de sensitvos, “choque sensitivo que irá durar anos” . . isso fez falta e é muuuuuuito melhor que “bombas estilo Dr Manhatan”.
Outra falha na caracterização do Ozymandias é que na HQ ele parece um herói o tempo todo, o maior heroi de todos e no filme ele é mais blasée e arrogante. Faltou também o lado empresário dele, lançando o Nostalgia, os outros produtos e os bonecos.
Outras mudanças grandes:
_Comediante matou o pres Kenedy???
_Ozymandias não foi vencido pelo Comediante, numa luta obscura num beco? Foi morto em pessoa pelo organizador da coisa toda porque descobriu a lista de envolvidos?
Não mostraram NADA do Dr Manhatan com o pai dele e os relógios, que justificam aquela construção em marte e tudo mais inclusive a própria reconstrução do corpo após o acidente (tudo pode ser reconstruído, desde que na ordem certa).
Hollis Mason sem morrer com a própria estatueta?!
Todos as demais personagens fizeram falta pra humanizar o filme e permitir que no fim houvesse uma perda sensivel, senão o tal “sacrificio” que o Ozymandias fala fica até plausível e o observador esquece das mortes, porque não tem ninguém que tenha morrido a quem ele tenha se afeiçoado durante a história. O garoto que lê os Contos do Cargueiro Negro tinha que aparecer mais.
No fim das contas, os humanos fariam o filme brilhar mais que os poderes do Dr. Manhatan.
