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A Piada Mortal da Opera Gráfica

Ganhei* de aniversário uma edição super especial de Batman - A Piada Mortal, editada em formato pocket e em preto & branco pela Opera Graphica Editora. Capa dura com hot stamping, encadernação de qualidade, impressão boa. Só senti falta de extras, textos introdutórios e etc mas aí talvez não coubesse numa versão pocket. Um trabalho de primeira do editor Roberto Guedes. Pra não dizer quebnão reclamei de nada, a guarda (página que liga os vários cadernos impressos à capa dura) podia ser de outra cor que não o verde escolhido, mas tudo bem.
Não sei exatamente como eles puderam publicar essa história (também não está muito claro de quando é essa publicação) que atualmente está licenciada pela Panini (que acabou de republicá-la tmbém em capa dura, tamanho normal e à cores) mas esta edição, baseada num formato francês, vale muito a pena.
Textos de Alan Moore dispensam maiores comentários além de: tudo que ele toca vira ouro. Não lembro de ter lido uma história ruim do mago vetusto (até em Wild Cats ele conseguiu fazer milagre inserir um pouco de substância em uma série até então tosca).
A Piada Mortal conta a origem do Coringa, humanizando a personagem e aproximando sua história da vida de qualquer pessoa comum, ainda que recorra a criação de alguns tipos clichês, que se mesmo assim se tornam totalmente críveis nas mãos do roteirista inglês.
Estão ali os dramas da pobreza, a cobrança auto-imposta, a responsabilidade com a família, a ingenuidade, o despreparo, a tentação, medo, corrupção e perdição. A densidade que Alan Moore confere ao Coringa, tornando ao mesmo tempo sádico e ultra-violento (no presente) e humano, falho e digno de pena (no passado) são de uma grandeza poucas vezes vista nas HQs, até pelo número reduzido de páginas da história, o que mostra que um bom autor consegue contar uma boa história, mesmo em poucas páginas.


A relação de Batman com o Coringa é várias vezes transformada ao longo da história, a começar pela entrada do morcego no Asilo Arkhan para falar do futuro dos dois, da violência desenfreada que os levará á morte. Depois na ultra-violência das torturas, que faz com que a sede de vingança se interponha no caminho da justiça/lei e por fim, nos momentos finais, de (quase) redenção e no diálogo que dá título à história.
A arte de Brian Bolland é igualmente rica e retrata com beleza e objetividade os fatos narrados. As expressões faciais, a perfeição da anatomia, a caracterização (cenários, indumentária, enquadramentos) é perfeitamente desenvolvida para que os constantes saltos no tempo, que entrelaçam os dados apresentados, sejam perfeitamente percebidos pelo leitor, sem atropelos nem qualquer situação forçada.

Começar a (re)ler essa edição, depois de ter assistido Cavaleiro das Trevas no cinema e lembrar da memorável caracterização de Heath Ledger como Coringa, significa (por uma ínfima fração de segundo) duvidar que algo de bom e diferente possa ser feito com o palhaço do crime, mas ao começar a jornada que Moore preparou, logo se vê em que fontes os roteiristas do filme beberam para chegar a um resultado tão bom e com certeza A Piada Mortal é uma delas.
Destaque para as cenas de tortura do Comissário Gordon nas mãos de uns anões bizarros, para a melancolia do Coringa ao repassar sua vida e para a reviravolta na vida de Bárbara Gordon (não vou entrar em detalhes pra não estragar a leitura de ninguém).

