Archive for the ‘Arte’ Category:
Teatro - Memórias de uma Mulher Perdida
Estreou no dia 15 de janeiro, no Teatro do Planetário da Gávea - Rio de Janeiro, uma peça da qual fiz o projeto gráfico: Memórias de uma Mulher Perdida (Monologo della Puttana in Manicomio, no original).
A principal proposta desta encenação é promover uma reflexão sobre aspectos da solidão, que podem se instalar e se manifestar na vida de qualquer indivíduo em sociedade, levando-o à loucura.
Dario Fo, além de ator e diretor, é reconhecido autor italiano de peças, romances e ensaios e, em 1997, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto da obra. Franca Rame, atriz e escritora, é sua esposa e assídua colaboradora.
Em 1977, escreveram Monologo della Puttana in Manicomio. Esta peça foi inserida pelos próprios autores na luta antimanicomial da Itália, iniciada por Franco Basaglia, psiquiatra e precursor do movimento de reforma psiquiátrica italiano, na década de 60.

UFRJ recebe prêmio de melhor universidade
de Arte & Design do Brasil

O prêmio de Melhor Universidade do Brasil na área de Arte & Design saiu para a UFRJ. O troféu do 5º Prêmio Melhores Universidades foi concedido pela Revista Guia do Estudante Banco Real/Grupo Santander 2009, em cerimônia realizada na última terça, dia 27, no Teatro do Memorial da América Latina, em São Paulo.
Foram premiadas oito áreas, cada uma com um troféu para melhor instituição pública e outro para melhor universidade privada. As áreas de Ciências Sociais e Humanas e Ciências Exatas e Informática da UFRJ ficaram entre as três finalistas. Neste ano, o curso de Desenho Industrial ganhou a cotação “Excelente” na avaliação anual do Guia do Estudante.
Para o professor Marcus Dohmann, coordenador do Laboratório do Núcleo Gráfico do Departamento de Comunicação Visual (LabGraf) da Escola de Belas Artes (EBA/UFRJ), o prêmio torna a universidade vitrine nacional no setor de Arte & Design e referência para outras instituições.
“O troféu não é importante apenas para uma área, mas para toda a UFRJ, que precisa investir mais em sua imagem, ainda pouco notória no cenário nacional”, destacou Dohmann, enfatizando ainda o empenho de todos os funcionários do setor para que o prêmio fosse conquistado.
Via UFRJ
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Portal Stalker - ficção científica real

Recebi um exemplar de Portal Stalker que, nas palavras de Nelson de Oliveira (idealizador do projeto) é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral.
Serão no total seis números e cada edição homenageia uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.
O objetivo do Projeto Portal é ter uma publicação de altíssima qualidade literária, que vire referência entre os escritores e os estudiosos do tema, e também entre os escritores e os estudiosos do mainstream.
O Projeto Portal não é comercializado. O lema é: poucos exemplares para poucos leitores exemplares. Por isso os números da revista não são vendidos, eles são distribuídos entre os melhores leitores do país.
Torço pelo projeto, que tem textos realmente muito bons. A iniciativa é (com o perdão do trocadilho) fantástica! A Sci-Fi brasileira precisa de espaços como esse. Até eu me animei a enviar meus textos para lá.
Para saber mais e entrar em contato com os realizadores, basta clicar aqui.
Find 2 x 2

Neste sábado, dia 16 de agosto, aconteceu na UERJ o FIND (Fórum Internacional de Design e Tecnologia Digital) e mais uma vez compareci para assistir as palestras de convidados nacionais e gringos.
No geral achei a organização do evento boa, mas um ou outro detalhe segue digno de nota: o evento foi realizado num local muito bom, o Teatro Odylo Costa, na UERJ, com capacidade para 1.106 lugares, o que garantiu que todos assistissem as palestras sentados (ao contrário de uma edição passada em que para ver o Sagmeister, muita gente ficou em pé ou sentado no chão). Mas faltou um pouco de sinalização para o local: uns banners conduzindo o público da entrada da UERJ até o auditório teriam ajudado bastante, vi muita gente pedindo informação pra chegar no local (eu inclusive).
A questão da tradução simultânea foi boa também, e vi pouca gente trocando os fones, o que demonstra clara evolução nessa área.
Sobre o que nos levou até o local: palestrantes, achei que o placar foi 2 x 2: das 4 palestras do dia, duas foram boas e 2 não foram, seja porque não falaram nada de novo ou porque se perderam do foco.
Chris Baylis - Clico, logo existo
Palestra boa, sobre campanhas on line foi bem interessante e mostrou algumas coisas do anúncio da TV Philips Cinema 21:9. Achei todos os argumentos válidos e bem expostos, com destaque para a crítica feita ao mercado brasileiro, onde “criativos” (odeio esse termo) gostam de centralizar o processo de geração de peças de comunicação para poder posar de autores máximos, ao contrário dos gringos, que se cercam dos melhores profissionais em cada ramo, para juntos obter o melhor resultado possível num anúncio, vídeo, foto ou o que for. Realmente o ego pode ser um problema no mercado de comunicação. Só não concordei quando ele disse que toda campanha precisa de uma ação on line para funcionar. Oliviero Toscani é um dos maiores comunicadores do mundo e fez isso a custa de, pasmem, cartazes (peça gráfica em extinção). Então não acho que tudo dependa da web para existir ou funcionar, mas como bem disseram meus amigos da 288, é nesse momento em que o cara puxa a sardinha pro lado dele . . .
Masa - Criatividade digital, posicionamento e promoção
Palestra fraca, com dicas óbvias de auto-promoção que já são praticadas por muitos alunos de 5º período de qualquer faculdade, então para profissionais, esperava que ele falasse mais.
A questão de “posicionamento” poderia ter sido abordada de várias formas: como se apresentar perante um cliente e o mercado (metodologia, sistema de cobrança, formalidade etc), que direcionamento ideológico move um profissional, que tipo de restrições morais um profissional se impõe e como isso se reflete na busca por trabalho, que tipo de encomenda nós devemos ou não aceitar, enfim, muitos recortes possíveis. De tudo isso ele só disse que prefere trabalhar para jovens e com esportes ou cultura. Ok, bom nicho muito agradável de atender, mas poderia ter falado de forma mais ampla.
O que se viu foi um relato de como ele chegou onde chegou, direito a falar (várias vezes) que fez trabalhos de um dia pro outro, como se isso fosse uma vantagem estratégica ou projetual. Falar num evento desses, pra tanta gente que o assiste, que um cliente pediu um trabalho de um dia pro outro e que isso foi aceito, sem explicar como se negocia isso, se é custo por hora, taxa de urgência, qual o custo a oferecer ao cliente por pedir algo com tão pouco planejamento, não sei mas acho meio nocivo, não? Que mentalidade vai se multiplicar a partir ed um discurso desses?
Mehdi Saeedi - CMYK Iraniano
Palestra ótima. O cara arrebentou e nem falou o tempo todo, porque metade do tempo foi destinado ao tradutor que o atendia na hora. Começou meio devagar porque o tradutor se limitava a repetir em português as palavras e não sua entonação, sem carga emocional, o que deixava o discurso meio cru e sem vida, mas o trabalho do cara é tão belo que isso sumiu na poeira. Lindas peças tipográficas e bem engajadas também.


veja mais no site dele clicando aqui.
Raphael Vasconcellos - Produto x Propaganda: quem mandará quando for tudo digital?
Palestra fraca. Valeu pelos momentos iniciais em que um problema técnico no som levou o palestrante a fazer uma “gambiarra” e aproveitar o microfone para captar o áudio direto do computador para enviar ao público. Jeitinho brasileiro utilizado para o bem. O tema não foi abordado, porque ao invés de falar sobre como os produtos serão acessados num mundo cada vez mais digital, como se dará o consumo e a busca por informação, o que se falou foi sobre como destacar um produto, criando em torno dele uma historia que faça com o que o observador tenha interesse sem necessariamente ser abordado por um anúncio. Ok, isso é válido, mas esse argumento já é um tanto batido e está em voga há uns 10 anos. Envolver um produto/serviço com significados extras? Foi a partir dessa idéia que se criou a frase preferida dos marketeiros: “agregar valor”.
Enfim, para não dizer que o evento teve aproveitamento de 50%, uma das melhores palestras (só perdeu pro iraniano), foi a do mestre de capoeira (se alguém souber o nome, me avise), que veio até o púlpito agradecer a Arteccom pelo apoio ao projeto social dele (recuperação de crianças marginalizadas a partir da capoeira, esportes, música etc), onde ele demonstrou todo seu conhecimento de pedagogia infantil e disse que tira a violência do cotidiano da criança com muito carinho (e mostrou o tamanho da mãozada que leva esse carinho todo rssss). Espetacular!
Foi bom também rever meus amigos (Carol Hoffman, Guilherme Howat e Guy Leal, Leonardo Caldi, Cassia e Soninha) e claro, alguns dos meus alunos participando da gravação do evento.
Cadáveres Perfumados
A importância de se lidar com o trabalho de Oliviero Toscani e suas campanhas na Benetton é a chance de pesquisar um outro modelo de publicidade e comunicação de massa, que na verdade não passa de uma reedição do modelo original desta forma de comunicação: a publicdade serve para publicar informações, levá-las ao conhecimento do público e permitir que cada vez mais pessoas tenham acesso a bens, serviços e produtos de consumo, seja por necessidade, seja por vontade garantida pelo regime democrático.
Anúncios, como a palavra indica, anunciam que determinada oportunidade está acessível: seja um novo remédio ou um novo tipo de roupa, ou um evento. Anúncios devem tornar uma informação pública para o observador.
As pessoas têm o direito de consumir, mas o que elas consomem? E em que ordem, sob qual regime? A comunicação de massa lhes mostra quais produtos estão disponíveis para compra ou mostra que não participar da compra significa “exclusão”?
Que discurso é esse segundo o qual a compra de um determinado produto nos transforma em espécies de pessoas que não somos originalmente? E onde isso vai nos levar? Obviamente, se alguém compra um perfume, se tornará alguém mais perfumado, mais arrurmado e bem cuidado, talvez mais zeloso de um certo ponto de vista, mas induzir a pensar (subjetivamente) que aquele perfume nos torna parecidos ou tão bem sucedidos quanto o galã que protagoniza o anúncio não corresponde exatamente á realidade.
Usar um perfume significa que uma pessoa ficará perfumada, nada mais.
A abordagem onírica dos anúncios, que prega sutilmente que o consumidor pode reproduzir o contexto dos “garotos-propaganda” exibidos nos comerciais apela para um desejo humano de superação e inclusão, de pertencimento e evolução. Mas a super-valorização dessa abordagem tem mergulhado os consumidores numa espiral de compra e frustração, porque nenhum produto transforma a vida de uma pessoa, só ela mesma.
Sobre Toscani, Spike Lee, cineata, escreveu na Roling Stone:
A Benetton desafiou o apartheid quando a agente de África do Sul protestou junto a Luciano Benetton, reclamando novos cartazes. Luciano respondeu-lhe ”Sinto muito, mas não mudaremos as fotos; esse é um problema seu, não nosso. O apartheid vai acabar desaparecendo um dia”.
O próprio Toscani diz:
Dois bebês nus, negro e branco, sentados em penicos brincavam juntos. Naquele mesmo ano de 1980 realizei uma campanha com a foto da criança negra espalmada contra a grande mão de um adulto branco. Lançamos este cartaz em painéis em 110 países durante a batalha do referendo que ia pôr fim ao apartheid.
Por que a publicidade, como a arte, como qualquer meio de comunicação, não poderia ser um jogo filosófico, um catalisador de emoções, um espaço polêmico?
Hoje em dia a publicidade se apresenta como o caminho das fórmulas consumistas, que estereotipam os consumidores e, por mais gerações X, Y e Z que surjam, a comunicação de massa tende a lhes apresentar o mesmo modus operandi: compre para ser igual a quem já comprou, para ter tanto sucesso e parecer parte de um mundo que na realidade não é seu.
O trabalho de Toscani data da década de 90 do século XX e ainda hoje parece atual, parece cada vez mais pertinente, num mundo que ainda segue modelos simplistas e pouco críticos.
Como diria Toscani: a publicidade precisa ser reinventada . . .
Calouros IV: Senso Estético
Além da teoria, da técnica e da prática, que se adquirem na academia, um fator será essencial para um bom desempenho na área de comunicação (design, moda, publicidade, multimídia, belas artes etc): senso estético.
Por senso estético entenda-se aqui a capacidade subjetiva de discernir sobre beleza aplicada a uma determinada situação. O belo, enquanto “perfeição agradável à vista, e que cativa o espírito” é intangível e relativo, cada pessoa tem seu referencial de beleza, mas é possível agrupar pessoas e estabelecer qual a linguagem visual que melhor se adapta a elas. E qual a que mais as desafia também, porque o papel do comunicador é expandir os limites da percepção, sua e dos demais.
O profissional que consegue desenvolver um projeto e avaliar sua funcionalidade, bem como sua excelência estética, ou seja, sua aplicabilidade numa demanda específica e sua capacidade de traduzir/transformar de forma agradável as referências visuais de uma comunidade, este será o profissional bem sucedido no mercado.
Quero deixar claro que não se trata de “agradar o cliente”, nem de dar ao observador o que ele “quer” mas de entender como e porque ele quer algo, a distância entre o que ele quer e o que ele necessita e comunicar idéias/conceitos, utilizando uma iconografia que seja adequada para a demanda e que seja também causadora de lapso, a captura da atenção do público.
Um bom profissional deve desenvolver a capacidade de avaliar se a informação proposta é adequada e se é esteticamente agradável ou se causa repulsa. Deve poder olhar um layout e pensar “isso não tem nada a ver com o que o público precisa” ou ainda “isto não está num nível profissional e requer mais refino, mais apuro”.
Dizem que bom senso não se ensina, que é um dom que vem com alguns desde o berço. Eu, que sou um cartesiano praticante, gosto de esquadrinhar cada conceito e tento enquadrá-los em normas técnicas, mensuráveis e controláveis e portanto não sou afeito a concepções cósmicas/espirituais. Obviamente eu respeito a predisposição genética de cada um. Então vou colocar minha visão sobre como se desenvolve o senso estético (que para ser desenvolvido precisa existir em cada pessoa, então talvez seja um dom natural mesmo).
Busque referências gráficas e visuais. O olhar precisa ser praticado e a mente precisa ser abastecida com informações para poder processá-las. Veja imagens de diversas estilos e plataformas, estude correntes diferentes de expressão. Permita-se expor a experiências estetica e sensorialmente instigantes, para que diferentes áreas do cérebro seja estimuladas. Leia os guias de referência e busque a origem dos cânones. Com um repetório vasto, fica mais fácil testar e propor linhas alternativas de comunicação.
Aumente sua bagagem cultural. Viaje sempre que possível, para sair dos lugares conhecidos e se deparar com costumes, comportamentos, temperos e temperaturas novas. Ler é básico, além das teorias e pesquisas, a leitura de ficção é igualmente útil, porque durante a leitura nossa imaginação constrói as imagens e esse exercício é essencial para uma mente que pretende ser criativa. Converse sobre assuntos que você (ainda) não domina. É incrível o que se pode aprender com qualquer pessoa eu aprendo muito com meus alunos. Ver filmes (no cinema, na tela grande, de preferência) é básico pela experiência de desligamento do mundo real e imersão num mundo proposto. Teatro, música, dança são igualmente construtivos. Eu só trabalho com música. Ver sites hoje em dia nem é necessário, é quase como respirar. Antigamente, no século passado, era preciso gastar um bom dinheiro para ter um anuário de design ou um portfolio impresso de algum escritório. Hoje basta entrar no site e ver todo o trabalho de designers, ilustradores, arquitetos, pintores, estilistas, escultores, etc. Ter uma biblioteca de referências para consulta e comparação é imperativo.
Por último, tenha senso crítico sobre o que você aprende. Tudo pode (e deve) ser questionado. Com sabedoria obviamente, mas todo o conhecimento deve ser testado e sua função verificada. Buda dizia: “meu ensinamentoé como um dedo apontando para a Lua. Favor não confundir o dedo com a Lua”. Quer dizer que não se deve seguir nenhuma direção só porque já seguiram e sim porque você testou e verificou que realmente te serve. Compare linhas de pensamento, compare autores, veja cada questão por diferentes ângulos. Ler sobre política somente na Veja é pedir para ficar bitolado. Agora, se você lê também a Carta Capital, a Caros Amigos, Le Monde Diplomatique e a Piauí, aí já dá para ter uma noção mais completa de cada caso.
Quando nosso cérebro está alimentado de informações visuais inventivas, nossa memória abastecida de experiências de vida interessantes e nosso raciocínio treinado para discernir valores, aí sim podemos contar que nosso senso estético está num nível bom e que o talento de cada um vai encontrar terreno fértil para se desenvolver.
Fica fácil perceber, por exemplo, que a cobertura política da Veja é muito, mas muito feia . . .
A Piada Mortal da Opera Gráfica

Ganhei* de aniversário uma edição super especial de Batman - A Piada Mortal, editada em formato pocket e em preto & branco pela Opera Graphica Editora. Capa dura com hot stamping, encadernação de qualidade, impressão boa. Só senti falta de extras, textos introdutórios e etc mas aí talvez não coubesse numa versão pocket. Um trabalho de primeira do editor Roberto Guedes. Pra não dizer quebnão reclamei de nada, a guarda (página que liga os vários cadernos impressos à capa dura) podia ser de outra cor que não o verde escolhido, mas tudo bem.
Não sei exatamente como eles puderam publicar essa história (também não está muito claro de quando é essa publicação) que atualmente está licenciada pela Panini (que acabou de republicá-la tmbém em capa dura, tamanho normal e à cores) mas esta edição, baseada num formato francês, vale muito a pena.
Textos de Alan Moore dispensam maiores comentários além de: tudo que ele toca vira ouro. Não lembro de ter lido uma história ruim do mago vetusto (até em Wild Cats ele conseguiu fazer milagre inserir um pouco de substância em uma série até então tosca).
A Piada Mortal conta a origem do Coringa, humanizando a personagem e aproximando sua história da vida de qualquer pessoa comum, ainda que recorra a criação de alguns tipos clichês, que se mesmo assim se tornam totalmente críveis nas mãos do roteirista inglês.
Estão ali os dramas da pobreza, a cobrança auto-imposta, a responsabilidade com a família, a ingenuidade, o despreparo, a tentação, medo, corrupção e perdição. A densidade que Alan Moore confere ao Coringa, tornando ao mesmo tempo sádico e ultra-violento (no presente) e humano, falho e digno de pena (no passado) são de uma grandeza poucas vezes vista nas HQs, até pelo número reduzido de páginas da história, o que mostra que um bom autor consegue contar uma boa história, mesmo em poucas páginas.


A relação de Batman com o Coringa é várias vezes transformada ao longo da história, a começar pela entrada do morcego no Asilo Arkhan para falar do futuro dos dois, da violência desenfreada que os levará á morte. Depois na ultra-violência das torturas, que faz com que a sede de vingança se interponha no caminho da justiça/lei e por fim, nos momentos finais, de (quase) redenção e no diálogo que dá título à história.
A arte de Brian Bolland é igualmente rica e retrata com beleza e objetividade os fatos narrados. As expressões faciais, a perfeição da anatomia, a caracterização (cenários, indumentária, enquadramentos) é perfeitamente desenvolvida para que os constantes saltos no tempo, que entrelaçam os dados apresentados, sejam perfeitamente percebidos pelo leitor, sem atropelos nem qualquer situação forçada.

Começar a (re)ler essa edição, depois de ter assistido Cavaleiro das Trevas no cinema e lembrar da memorável caracterização de Heath Ledger como Coringa, significa (por uma ínfima fração de segundo) duvidar que algo de bom e diferente possa ser feito com o palhaço do crime, mas ao começar a jornada que Moore preparou, logo se vê em que fontes os roteiristas do filme beberam para chegar a um resultado tão bom e com certeza A Piada Mortal é uma delas.
Destaque para as cenas de tortura do Comissário Gordon nas mãos de uns anões bizarros, para a melancolia do Coringa ao repassar sua vida e para a reviravolta na vida de Bárbara Gordon (não vou entrar em detalhes pra não estragar a leitura de ninguém).

*Valeu Guilherme!
Matrioshki - A Lei do Cão Belga
Acabou de estrear no Telecine Action a 2ª temporada de Matrioshki, a série belga que retrata o submundo do tráfico humano na Europa. A primeira temporada foi marcada por um clima depressivo, por conta do clima gélido das ex-repúblicas soviéticas, da vida miserável que o povo daqueles países leva e pela total falta de noção das meninas de lá, que tem uma ingenuidade e uma falta de perspectiva inversamente proporcionais à sua beleza, o que atrai os traficantes e aliciadores aos montes.
O interessante da série, além do retrato da (pouca) qualidade de vida de parte desses países, é a caracterização naturalista da máfia da prostituição: sem falso glamour, sem a lendária “honra dos bandidos” (que contaminou vários filmes de máfia após O Poderoso Chefão) e acima de tudo, sem esperança ou finais felizes fabricados.
Não quero aqui fazer apologia do pessimismo, mas é interessante ver alguma produção que mostra, mesmo que de vez em quando, que as pessoas de bem também perdem, porque é isso que se vê todos os dias (principalmente aqui no Rio de Janeiro): gente honesta e trabalhadora sofrendo nas mãos de bandidos (de diversos tipos e cores) sem opções de fuga ou compensação.
Matrioshki traz meninas sem futuro em países como a Lituânia, Rússia e outros, que são convidadas para testes de “dança” e acabam escolhendo sem saber o caminho dos prostíbulos de países distantes. Os passaportes são confiscados, os contratos são escritos em uma língua que nenhuma entende e os aliciadores as submetem a humilhações físicas e sexuais antes mesmo de chegarem ao destino e serem entregues aos “clientes”.
A série é sucesso de crítica na Europa e suas imagens são utilziadas pela Anistia Internacional em campanhas de combate e prevenção ao tráfico internacional de escravas sexuais.


O roteiro parece sádico, mas na verdade é uma análise crua de como se dá o processo de aliciamento de meninas para essa atividade. As cenas são ásperas, secas, não há trilha sonora para antecipar cenas chocantes, nem lágrimas para que o observador se envolva com alguma personagem. Também não há suspense bobo antes nem pausa dramática após. Só os fatos, as escolhas e as consequências.
Algumas meninas querem voltar e não sabem como, outras aderem ao novo estilo de vida. Algumas fazem pelo dinheiro para a família pobre, outras por sonhos de consumo de uma realidade capitalista desconhecida. Aos poucos as personagens vão sendo construídas de maneira simples, em poucos mas emblemáticos diálogos.
A segunda temporada também traz uma mudança de cenário e de elenco, pulando 3 anos após a temporada 1, mostrando que os roteiristas acreditam que um bom argumento rende boas histórias, não improta o elenco anteriormente construído. E acertam: algumas caras e fatos conhecidos são citados, mas o que importa mesmo é o contexto, as situações extremas (pobreza, violência e maldade) a que todos se submetem.
Parece que a falta aos autores uma fagulha que seja de romantismo, dada a alta taxa de mortalidade da série, mas o mundo da máfia não deve mesmo ser feito de pessoas fofas.




Telecine Action
Terça-feira
00h
http://www.matroesjkas.be/
A Esperança de Cuarón
Filmes são a condensações do pensamento dos autores sobre temas que consideram relevantes. Nem todo o tema que um diretor acha essencial será assim considerado pelos observadores e os filmes de maior sucesso são aqueles que conseguem reproduzir o anseio de uma grande parcela de pessoas num determinado período. Podem ser blockbusters hollywoodianos ou filmes mais autorais, mas quando um autor consegue levar para as telas a tradução do pensamento de quem assiste o filme, então aquela obra se torna também um discurso de quem está na platéia, para além de quem a criou originalmente.
Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), de Alfonso Cuarón tem essa característica. Consegue traduzir em cenas simples, através de imagens que materializam os argumentos, o mundo caótico e auto-destrutivo em que vivemos hoje e suas consequências para as gerações vindouras. Numa Inglaterra futurista, encontramos o nosso próprio quintal estampado no trânsito esquizofrênico, nas ruas sujas, no meio ambiente degradado e nas pessoas cada vez mais distantes. Era para ser um filme de ficção científica (e o é, obviamente) mas a crítica ácida do diretor ao nosso modo de vida irresponsável deixa claro que o futuro exibido no filme já começou faz tempo.
