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Calouros IV: Senso Estético

4 Comments | This entry was posted on abr 25 2009

Além da teoria, da técnica e da prática, que se adquirem na academia, um fator será essencial para um bom desempenho na área de comunicação (design, moda, publicidade, multimídia, belas artes etc): senso estético.

Por senso estético entenda-se aqui a capacidade subjetiva de discernir sobre beleza aplicada a uma determinada situação. O belo, enquanto “perfeição agradável à vista, e que cativa o espírito” é intangível e relativo, cada pessoa tem seu referencial de beleza, mas é possível agrupar pessoas e estabelecer qual a linguagem visual que melhor se adapta a elas. E qual a que mais as desafia também, porque o papel do comunicador é expandir os limites da percepção, sua e dos demais.

O profissional que consegue desenvolver um projeto e avaliar sua funcionalidade, bem como sua excelência estética, ou seja, sua aplicabilidade numa demanda específica e sua capacidade de traduzir/transformar de forma agradável as referências visuais de uma comunidade, este será o profissional bem sucedido no mercado.

Quero deixar claro que não se trata de “agradar o cliente”, nem de dar ao observador o que ele “quer” mas de entender como e porque ele quer algo, a distância entre o que ele quer e o que ele necessita e comunicar idéias/conceitos, utilizando uma iconografia que seja adequada para a demanda e que seja também causadora de lapso, a captura da atenção do público.

Um bom profissional deve desenvolver a capacidade de avaliar se a informação proposta é adequada e se é esteticamente agradável ou se causa repulsa. Deve poder olhar um layout e pensar “isso não tem nada a ver com o que o público precisa” ou ainda “isto não está num nível profissional e requer mais refino, mais apuro”.

Dizem que bom senso não se ensina, que é um dom que vem com alguns desde o berço. Eu, que sou um cartesiano praticante, gosto de esquadrinhar cada conceito e tento enquadrá-los em normas técnicas, mensuráveis e controláveis e portanto não sou afeito a concepções cósmicas/espirituais. Obviamente eu respeito a predisposição genética de cada um. Então vou colocar minha visão sobre como se desenvolve o senso estético (que para ser desenvolvido precisa existir em cada pessoa, então talvez seja um dom natural mesmo).

Busque referências gráficas e visuais. O olhar precisa ser praticado e a mente precisa ser abastecida com informações para poder processá-las. Veja imagens de diversas estilos e plataformas, estude correntes diferentes de expressão. Permita-se expor a experiências estetica e sensorialmente instigantes, para que diferentes áreas do cérebro seja estimuladas. Leia os guias de referência e busque a origem dos cânones. Com um repetório vasto, fica mais fácil testar e propor linhas alternativas de comunicação.

Aumente sua bagagem cultural. Viaje sempre que possível, para sair dos lugares conhecidos e se deparar com costumes, comportamentos, temperos e temperaturas novas. Ler é básico, além das teorias e pesquisas, a leitura de ficção é igualmente útil, porque durante a leitura nossa imaginação constrói as imagens e esse exercício é essencial para uma mente que pretende ser criativa. Converse sobre assuntos que você (ainda) não domina. É incrível o que se pode aprender com qualquer pessoa eu aprendo muito com meus alunos. Ver filmes (no cinema, na tela grande, de preferência) é básico pela experiência de desligamento do mundo real e imersão num mundo proposto. Teatro, música, dança são igualmente construtivos. Eu só trabalho com música. Ver sites hoje em dia nem é necessário, é quase como respirar. Antigamente, no século passado, era preciso gastar um bom dinheiro para ter um anuário de design ou um portfolio impresso de algum escritório. Hoje basta entrar no site e ver todo o trabalho de designers, ilustradores, arquitetos, pintores, estilistas, escultores, etc. Ter uma biblioteca de referências para consulta e comparação é imperativo.

Por último, tenha senso crítico sobre o que você aprende. Tudo pode (e deve) ser questionado. Com sabedoria obviamente, mas todo o conhecimento deve ser testado e sua função verificada. Buda dizia: “meu ensinamentoé como um dedo apontando para a Lua. Favor não confundir o dedo com a Lua”. Quer dizer que não se deve seguir nenhuma direção só porque já seguiram e sim porque você testou e verificou que realmente te serve. Compare linhas de pensamento, compare autores, veja cada questão por diferentes ângulos. Ler sobre política somente na Veja é pedir para ficar bitolado. Agora, se você lê também a Carta Capital, a Caros Amigos, Le Monde Diplomatique e a Piauí, aí já dá para ter uma noção mais completa de cada caso.

Quando nosso cérebro está alimentado de informações visuais inventivas, nossa memória abastecida de experiências de vida interessantes e nosso raciocínio treinado para discernir valores, aí sim podemos contar que nosso senso estético está num nível bom e que o talento de cada um vai encontrar terreno fértil para se desenvolver.

Fica fácil perceber, por exemplo, que a cobertura política da Veja é muito, mas muito feia . . .

Calouros III: Teoria + Técnica + Prática

4 Comments | This entry was posted on abr 25 2009

Uma vez em sala de aula, entenda que seu desempenho depende de três pilares: o conhecimento das pesquisas que já foram desenvolvidas sobre os assuntos estudados (teoria), as ferramentas de produção cabíveis para cada área (técnica) e o exercício articulado desses dois elementos (prática).

Um aluno de design, publicidade, multimídia, moda, etc. precisa saber, por exemplo, história da arte, percepção visual e metodologia de projeto (entre várias outras obviamente), para adquirir a bagagem estética e analítica que depois irá se manifestar nos trabalhos feitos. Precisa saber algumas ferramentas (Illustrator e Photoshop são básicos, In Design é ideal, saber pesquisar na web é essencial) para poder materializar as idéias e transformá-las em produção real, acadêmica ou profissional, para os que já estão no mercado. E precisa saber como é lidar com um chefe, com cliente, com colegas de trabalho com interesses diferentes e conflitantes, para ver na real o que é a selva.

Sem o embasamento teórico, o aluno de nível superior dá um passo na direção de um curso técnico, muito baseado nos braços que fazem e pouco no cérebro que pensa (nada contra os cursos técnicos, que têm sua função e lugar na história do nosso país), mas se você quer adquirir e gerar conhecimento, há que se ler e estudar a base filosófica, psicológica e comportamental das questões.

De nada adianta fazer figuras bonitas (o que é bonito e quem determina isso?) se o conceito que lhes amarra à realidade estiver furado ou nem existir.

Ao ler um texto teórico, que analisa um determinado contexto, sem necessariamente citar exemplos (o Discurso Sobre o Método, de Descartes, não fala de nenhum projeto gráfico específico e sim sobre o pensamento metodológico e organizado), estabelecemos uma linha de pensamento analógico (que é a relação de semelhança entre objetos diferentes e suas causas) e metafórica (argumentação em que a significação natural de uma palavra é substituída por outra, só aplicável por comparação subentendida) e assim expandimos nossa capacidade perceptiva. Estabelecemos conexões novas.

“O progresso das idéias nasce quase sempre
da descoberta de relações impensadas,
de ligações inauditas, de redes inimaginadas.”

Omar Calabrese
A Idade Neo-Barroca

O cérebro é como se fosse um músculo que precisa ser exercitado regularmente e ler teoria é o que faz esse órgão se fortalecer. Quando adquirimos um repertório teórico, podemos articular esses vários canais de entrada para analisar um determinado objeto: uma pessoa versada em semiótica e gestalt pode analisar diferentes instâncias da mesma imagem e seu papel enquanto geradora de estímulos numa comunidade. Um pessoa versada em história da arte pode determinar a que período político pertence uma pintura apenas pelo tema escolhido pelo autor.

Teoria é o chão por onde iremos nos mover e se não for bem sedimentado, com certeza iremos afundar.

Por outro lado, uma vez adquiridos os conhecimentos teóricos, que serão aplicados com senso crítico, precisamos materializar os conceitos nos quais nos baseamos em layouts, peças, imagens, textos, instalações, formas e funções.

É praticamente impossível fazer um bom trabalho sem o devido preparo técnico, porque ao invés de investir na conceituação do projeto gráfico, o aluno que não mexe nas ferramentas básicas de mercado fica patinando para fazer uma linha reta, colocar um texto numa forma circular, fazer um gradient mesh, ou posicionar objetos geometricamente alinhados. O tempo que se gasta descobrindo essas questões é o tempo que se tem para realizar o trabalho e aí tudo se complica.

O conhecimento técnico deve vir o mais cedo possível. Saber Illustrator deve ser que nem respirar: quanto mais cedo aprender melhor porque se demorar muito, não precisa mais.

E na prática, busque o estágio/emprego que te adicione algum conhecimento. O estágio é para complementar a sua educação, ou seja, o estágio é para o estagiário e não para a empresa. Uma vez alocado, você precisa aprender o tempo inteiro e isso vai acontecer das mais variadas formas: cortando papel, retocando imagem, arquivando dados, terminando o trabalho dos outros, etc. Até que se adquira o conhecimento necessário para criar desenvolver projetos próprios. Em todos eles, você deve se manter atento e se perguntar: o que eu estou aprendendo agora? Se a resposta for “nada” ou “não sei” pode procurar um outro lugar para gastar seu tempo.

E obviamente, no primeiro estágio, sem experiência nenhuma, o único capital a trocar é força de trabalho, então talvez (e só talvez) você vá trabalhar de graça, mas depois de aprender algo que possa ser útil e oferecido a alguém, então essa será sua moeda de troca na busca de novos conhecimentos. Ou seja, trabalhar de graça nem pensar. Desconfie de quem não respeita e nem reconhece sua mão-de-obra.

Seu patrão não te trata com decência? Não remunera seu serviço? Não investe tempo no seu treinamento? E ainda te joga piadinhas do tipo “escraviário”, “estagiário tem mais é que cortar papel”, “para você não tem folga nem feriado”? Agradeça o tempo em que trabalharam juntos e diga adeus.

Seu patrão te usa para funções fora da sua vaga (ligar para o veterinário, lavar os pratos da empresa, confirmar consulta no dentista dele)? Não agradeça o tempo em que trabalharam juntos e diga adeus.

Calouros II: Posturas

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Estou escrevendo para calouros porque alguns alunos meus são do 1º período e sempre acho que faltam referências nessa época. Ensino superior é uma realidade distinta de tudo que passamos antes e precisamos nos adaptar rapidamente. O que mais me impressiona são histórias de alunos que não estão mais no primeiro período e ainda não receberam certos toques, nem das instituições onde estudam, nem de professores, nem da vida e nem de ninguém.

Em primeiro lugar a prova é quase um concurso público, não foi nenhum parente nosso que nos inscreveu, deu uniforme e assinou por nós (para os que fizeram vestibular aos 17 anos, talvez tenha sido a última vez em que alguém assinou um documento para você). Seu tempo será contado em semestres, normalmente você fará seu horário (e isso será decisivo na sua produtividade, na data de graduação, na qualidade dos seus trabalhos e na busca de estágio/emprego). Sua turma pode mudar a qualquer momento, basta uma reprovação, sua ou de qualquer um. E o mais importante: uma vez na faculdade, todas as decisões serão exclusivamente suas. Para o bem ou para o mal, é o seu nome que está assinando.

Ao entrar para uma faculdade ou universidade, o aluno se torna o único dono do seu nariz e todas as escolhas feitas irão recair sobre o histórico acadêmico, bem como as oportunidades aproveitadas, então, para quem quer se dar bem na faculdade e chegar competitivo ao mercado, é bom se alinhar e entender que se você não decidir fazer (ou deixar de fazer), ninguém tem nada a ver com isso. Não vai adiantar depois querer reclamar, tem que ser no ato, com senso crítico, lógico, mas é preciso se posicionar logo, para não perder o bonde da história e ter seus direitos/deveres lesados.

Seguem 4 dicas simples:

Busque a informação. Não espere ser informado, é sempre melhor ouvir do professsor a frase “calma que eu vou chegar lá” do que ter que dizer “eu não sabia”. Entenda como seus professores e a instituição funcionam e, para quem usa email, escreva por email, para quem fala cara a cara, fale cara a cara também (depois escreva por email para registrar ou tenha testemunhas), para quem não fala nada (pessoas que não respondem perguntas diretas existem aos montes), arrume um jeito de publicar isso, de passar para a hierarquia diretamente acima que sua situação está indefinida por conta de falta de posicionamento de A ou B.

Dizer que não sabia, que não foi avisado, que não acha justo é descabido numa faculdade. Se não foi avisado, o vacilo é seu, que esperou a informação de mão beijada. Se não sabia e alguém sabia, pior ainda, porque se perdeu da informação (pergunte ao professor se algum email novo foi enviado, se há algo na pasta, pergunte aos seus colegas se eles receberam algum email que você possa não ter recebido, se leram algo, se ouviram algo etc). Só não pode achar que depois vão ter “pena” de você, outra coisa que não existe em faculdade nenhuma.

Seja preciso, pontual e produtivo (e busque isso nos colegas e professores também). Não pergunte gaguejando ou de uma forma ininteligível. Fale alto e claro. Caso receba uma data de entrega de trabalho, não atrase para depois ficar pedindo ponto. Faça o seu, para não depender dos outros. E produza! Organize seu tempo, seus afazeres e faça os trabalhos, leia os textos, escreva, crie e entregue, mesmo que errado. Seu professor vai respeitar um aluno que errou ao tentar e vai desconsiderar quem sequer tentou.

Não tenha medo nem vergonha de perguntar. Não leve sua dúvida para casa, ao invés disso, levante a mão e diga que se perdeu, que não entendeu, até resolver o problema. Passe a dúvida para quem tem melhor pode te ajudar a dissolvê-la: seu professor. Não exite pergunta descabida em sala de aula, só existe pergunta não respondida (se você deixar).

A última dica desse post é para os alunos que entram em projetos extra-classe (iniciação científica, produção de eventos ou similares) e depois patinam na execução das tarefas, nos prazos e acabam se enrolando com o ensino regular: você é aluno e como tal precisa de orientação constante.

Não se iluda: quem te aloca numa tarefa tem a obrigação de te treinar, capacitar, educar e informar sobre o que espera de você, sobre como fazer e, caso saia algo errado, deve ter a generosidade de re-treinar, para evitar erros futuros. Não aceite responsabilidades demais. Existe a hora certa para entrar e para não entrar numa furada. Participar de um evento é furada? Quase sempre (fornecedores furam prazos, palestrantes faltam sem avisar, equipamentos dão defeito, etc) mas se você é calouro e quer aprender a ser articulado, essa é a melhor escola. Num evento você vai aprender a “resolver problemas”, literalmente. Ok, tudo muito bonito, mas para que você esteja habilitado para isso é preciso ser capacitado antes, ou seja, quem te alocou na função deve te dar o caminho das pedras e te acompanhar de perto, bem perto.

Se você é calouro, ou estudante de qualquer período, e tem uma tarefa a cumprir, esta tarefa é obter/gerar conhecimento e manter seu CR no nível mais alto (e isso depende unicamente de você), o resto é feito no tempo que sobrar e se não se enquadrar/ajudar nessa tarefa principal, então alguma coisa está muito errada.

Massimo Vignelli e seu Cânone

0 Comments | This entry was posted on abr 22 2009

Um dos maiores designers da história, Massimo Vignelli lançou em pdf The Vigneli Canon, um livro que fala de design gráfico, processos, metodologia, conceitos tangíveis e intangíveis num bom projeto gráfico.

Um primor, recheado de opiniões ácidas, como quando ele (um modernista praticante) afirma que o design pós-moderno representa a confusão e o caos e que um bom designer só precisa de um punhado de fontes (e lista 6: Garamond, Bodoni, Century Expanded, Futura, Times Roman e obviamente a Helvetica).

O livro é ilustrado e me parece ser um manifesto em favor da ordem, da hierarquia e da estabilidade. Alguns criticam a utilização de grids e a unidade tipográfica de Vignelli, mas seu portfolio, que conta com clientes  como American Airlines, Benneton, metrô de NY, entre outros, o precede.

O link para o arquivo: http://www.vignelli.com/canon.pdf

Via Imagem, Papel e Fúria.

Calouros I: Hábitos e Precedentes

2 Comments | This entry was posted on abr 22 2009

Os primeiros períodos são determinantes para que se estabeleça um padrão de atuação que vai se perpetuar durante todo o curso. É quando se estabelece que hábitos serão mantidos e quais os precedentes serão aceitos.

Nestes primeiros períodos o aluno vai conhecer a instituição em que estuda, alguns professores e seus colegas. Conselho? Aproxime-se dos colegas que produzem e que tem idéias críticas (sem ser grosseiros, claro). Aproxime-se dos professores que são dedicados e severos (sem ser intransigentes, claro) e aproxime-se dos funcionários que são articulados mas organizados (sem ser burocráticos, obviamente).

Seus colegas de turma vão se dividir em vários grupos: os que estão ali porque ainda não sabem que vocação têm e qual carreira vão seguir, mas precisam fazer um curso de nível superior por se sentirem pressionados (pela família, por comparação com amigos, etc); alguns serão os que só querem um diploma de 3º grau mas vão trabalhar em outras áreas (dança, com os pais, com festas etc); os que estão ali porque estão decididos com o que querem (são os mais produtivos) e os nerds (que sabem o que querem mas as vezes perdem o foco).

Junte-se aos que querem realmente estar ali (nerds inclusos, claro!): são os que se importam com as provas, matéria dada, com as aulas e trabalhos. Geralmente não sentam no fundo (embora sempre se encontre uma ou outra exceção).

Dentre esses, mantenha especial atenção aos que têm opiniões fortes, que não ficam olhando o professor falar em silêncio e também pedem silêncio aos que estão atrapalhando. São os que levantam a mão para dizer que não entenderam (não são os menos capazes e sim os que mais rápido vão aprender), porque já receberam a informação, já cruzaram com suas referências internas, já descobriram que não combinam e já avisaram que não estão satisfeitos e que desejam uma nova explicação. Enquanto isso acontece, a maioria dos outros alunos sequer percebeu que não entendeu e só vai se dar conta disso no futuro, quando for utilizar na prática a informação dada em sala de aula.

Quanto aos professores, concentrem-se naqueles que realmente estão comprometidos em fazê-los aprender e não somente cuspindo fórmulas a cada segundo. Especial atenção no professor que ataca a questão por vários ângulos, que estabelece padrões para questioná-los em seguida. Especial atenção ao professor que tem compromisso com sua evolução, de forma severa, que exige que você aprenda mas te te ajuda nesse objetivo. Uma forma de testar? Simples: peça para que ele explique 3 vezes seguidas uma questão dada em sala de aula. Aquele professor que não demonstrar paciência com as dúvidas do aluno não está motivado a ajudar a turma e talvez não domine a matéria o bastante para atender a quem pergunta. Nada contra, essa época de professor como provedor de conhecimento já acabou (pelo menos já deveria ter acabado). O bom educador hoje é aquele que ensina mas fomenta o conhecimento na turma, que aciona o aluno a pesquisar (aluno de curso superior é pesquisador e deve gerar informação e não somente recebê-la).

Filosoficamente falando, cada explicação deve utilizar uma linguagem distinta da anterior (a linguagem utilizada na última explicação não funcionou, senão a dúvida nem existiria) e o professor deve ter articulação para re-explicar, paciência para com o tempo de cada aluno e humildade em reconhecer que suas cartas acabaram e que na semana seguinte trará a informação solicitada, caso a questão não se solucione. O bom professor vai se lembrar da sua pergunta (se a turma não for enorme, claro) e vai te atender. Cole nesse professor.

Finalmente, em cada instituição, há os bons e os maus funcionários. Os bons são os que conhecem o maquinário peça por peça e sabem bem como resolver cada problema apresentado (sua inscrição não foi validada, trancamento de disciplina, pagamento em aberto, nota não lançada, etc). Os maus ou não querem, ou sequer sabem como agir e estão ali porque algum concurso os deixou passar ou porque são amigos de alguém que decide. Identifique logo quem resolve questões e estabeleça vínculos com eles.

O pulo do gato está na documentação de cada processo. A agilidade é importante mas sempre que possível, faça as coisas de maneira oficial, documentada, por escrito, nem que seja email, porque palavra escrita é documento e documento é compromisso firmado.

Finalmente, falando de hábitos e precedentes, nos primeiros períodos temos energia e motivação para levar nosso CR no teto e depois temos que manter essa média no restante do curso, o mais alto que pudermos. Um dia você vai precisar de um histórico acadêmico que mostre que você foi bom aluno e aí você vai lembrar do CR.

Agora, se logo no primeiro período o aluno deixa suas notas baixarem, seu CR cair, se não se importa com uma reprovação (que vai deixá-lo fora do grupo no semestre seguinte) então abre-se um precedente ruim que vai se tornar um hábito negativo por todo o curso: “já fui reprovado uma vez, mais uma não vai fazer diferença” e aí é ladeira abaixo.

Quando for decidir com quem fazer um trabalho de grupo, pergunte: “cara, já cogitou a hipótese de ser reprovado?”

Dependendo da resposta você vai saber como ficará o trabalho em questão.

Branding I

6 Comments | This entry was posted on abr 15 2009

Branding é gestão de marca, da imagem de uma empresa, produto ou serviço. É uma prática comum na comunicação e adminstração atual, porque as empresas cada vez mais precisam de reforços, literalmente, na batalha contra seus concorrentes. Num mundo onde dois produtos são iguais, têm o mesmo desempenho e tendem a ser percebidos da mesma forma pelo consumidor, qual a forma de diferenciá-los? Branding é a resposta mais comum . . .

Os programas de branding criam arcabouços sensoriais em torno das marcas, que as tornam portadoras de mais significados do que simplesmente a designação do serviço/produto que representam. Em outras palavras, as marcas recebem novos “valores”, para que sua “personalidade” se torne mais produnda e densa. Fazendo uma analogia com o cinema, as marcas são as personagens sendo construídas dentro da história e os programas de branding são os vários acontecimentos do roteiro que tornam essa construção visível aos olhos do observador.

Toda marca deve expressar algo para seu observador, levar consigo essa carga sensorial que faça com que, ao ser vista, crie reminiscências que estabelecem vínculos com o “consumidor” e desse vínculo deriva a fidelidade à marca/produto/serviço.

Edmund Husserl diz que “para expressar algo, portanto, é preciso significação; ao fenômeno da expressão superpõe-se uma significação; e quando essa significação se enche de conteúdo na intuição, temos a apreensão da essência”. (MARÍAS, 2004, 454).

Para apreender o universo representado pela marca, o observador precisa ter acesso a essa base conceitual. A primeira busca que fazemos, intuitivamente desde sempre, é no universo concreto do serviço ou produto que cada marca representa, mas atualmente as significações atribuidas às marcas extravazam seu universo original e são muitas vezes, arbitradas e amplamente divulgadas pro campanhas de comunicação que visam estabelecer certas conexões através de convenções, ou seja, estabelecem conexões não naturais.

Um termo comum nos programas de branding é a “experiência de marca”, onde o observador trava contato com a marca de forma subjetiva, na maioria das vezes fora do seu contexto original. Na verdade essa experiência é uma tentativa de expansão do contexto da marca, para que o observador adquira mais estímulos que o conectem com aquele produto/serviço/empresa.

Essas experiências vão desde um abordagem diferente do produto no PDV, destacando suas qualidades originais ou (criando) as novas, até abordagens mais complexas, como por exemplo o patrocínio a eventos que atendam um público-alvo interessante para o produto vendido. Uma marca de telefonia, que tem entre jovens de classe média alta uma grande parcela de seu público consumidor, pode por exemplo patrocinar um festival de música e trazer para esses jovens uma série de shows que os façam pensar: “legal, sem a empresa tal eu não estaria neste show!”.

Entendo que as empresas busquem diferenciais para seus produtos, que busquem excelência  estética para sua comunicação e programas bem desenhados, do ponto de vista estratégico para alcançar seus objetivos comerciais. Estamos num mundo mercantilista, não há como fugir disso.

Não critico o comércio, sou o primeiro a dizer que o dinheiro deve rodar, deve trocar de mãos, ser reinvestido, ser transformado em consumo, que aqueça a economia, que gere empregos, que traga mais investimentos e toda a cadeia de consumo e produção que se retroalimenta.

Também não deponho contra o ramo do design que trata da gestão de marcas. Seria loucura, até porque sou designer e trabalho em programas de branding também.

Acho que devemos gerar formas cada vez mais pregnantes, que se tornem parte da memória de cada observador e que auxiliem na circulação da informação. Designers devem promover a  comunicação, ligar pessoas e para isso as marcas, programas de identidade visual e programas de branding (entre outros) devem se apoiar em formas que gerem lapso no observador e capturem sua atenção (Lyotard, 1998, 40).

Minha dúvida é: a maior parte dos programas de branding hoje em dia tem se especializado em “amplificar a força das marcas” ou “vender bem a imagem de empresas ruins”, ou seja de fazer reforço/ressiginificação de marca para compensar um serviço mal prestado?

Estamos num processo de descoberta e exploração de atributos dos produtos/serviços ou em um processo de fetichização e ressiginificação essencialmente subjetiva das marcas? Os programas de branding se concentram no que as marcas representam ou nas marcas em si? As marcas estão se tornando “o” produto?

É impressão minha ou em alguns casos as marcas estão ganhando reforços enquanto a prestação de serviços está decaindo em qualidade? É claro que á princípio uma marca não se sustenta se não representar um serviço ou produto sólido e de qualidade. A marca é forte quando sua representação é incontestávelmente ligada à qualidade, mas é perfeitamente possível que marcas fortes seja ligadas á serviços ruins ou mal prestados.

A maior parte das empresas de telefonia, por exemplo, figuram entre as campeãs de reclamação nos serviços de proteção ao consumidor, seja pela (péssima) qualidade do serviço oferecido, seja pela (outra vez pésima) qualidade do atendimento ao cliente, quando este busca soluções ou ressarcimentos. Mesmo assim, são bem posicionadas no mercado, por conta justamente de programas de branding que atribuem às suas marcas uma série de valores que não necessariamente veremos na prática do serviço prestado.

Alguns bancos que divulgam amplamente suas ações “socialmente responsáveis”, na verdade cobram taxas de juros exorbitantes de seus correntistas.

Algumas cadeias de lanchonetes fast food têm marcas fortes mas são constantemente alvos de denúncias por parte dos órgãos de controle de saúde por conta do balanceamento nutritivo dos seus alimentos.

Enfim, branding é uma área do design que se destina a gerenciar a forma como o público vê uma marca e com ela se relaciona ou está se tornando “banho de loja” para empresas que desejam vender significados que seus produtos não têm?

LYOTARD, Jean François. Moralidades Pós-modernas. 1ª ed. São Paulo: Papirus, 1996.
MARÍAS, Julián. História da Filosofia. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

A Piada Mortal da Opera Gráfica

3 Comments | This entry was posted on abr 14 2009

Ganhei* de aniversário uma edição super especial de Batman - A Piada Mortal, editada em formato pocket e em preto & branco pela Opera Graphica Editora. Capa dura com hot stamping, encadernação de qualidade, impressão boa. Só senti falta de extras, textos introdutórios e etc mas aí talvez não coubesse numa versão pocket. Um trabalho de primeira do editor Roberto Guedes. Pra não dizer quebnão reclamei de nada, a guarda (página que liga os vários cadernos impressos à capa dura) podia ser de outra cor que não o verde escolhido, mas tudo bem.

Não sei exatamente como eles puderam publicar essa história (também não está muito claro de quando é essa publicação) que atualmente está licenciada pela Panini (que acabou de republicá-la tmbém em capa dura, tamanho normal e à cores) mas esta edição, baseada num formato francês, vale muito a pena.

Textos de Alan Moore dispensam maiores comentários além de: tudo que ele toca vira ouro. Não lembro de ter lido uma história ruim do mago vetusto (até em Wild Cats ele conseguiu fazer milagre inserir um pouco de substância em uma série até então tosca).

A Piada Mortal conta a origem do Coringa, humanizando a personagem e aproximando sua história da vida de qualquer pessoa comum, ainda que recorra a criação de alguns tipos clichês, que se mesmo assim se tornam totalmente críveis nas mãos do roteirista inglês.

Estão ali os dramas da pobreza, a cobrança auto-imposta, a responsabilidade com a família, a ingenuidade, o despreparo, a tentação, medo, corrupção e perdição. A densidade que Alan Moore confere ao Coringa, tornando ao mesmo tempo sádico e ultra-violento (no presente) e humano, falho e digno de pena (no passado) são de uma grandeza poucas vezes vista nas HQs, até pelo número reduzido de páginas da história, o que mostra que um bom autor consegue contar uma boa história, mesmo em poucas páginas.

A relação de Batman com o Coringa é várias vezes transformada ao longo da história, a começar pela entrada do morcego no Asilo Arkhan para falar do futuro dos dois, da violência desenfreada que os levará á morte. Depois na ultra-violência das torturas, que faz com que a sede de vingança se interponha no caminho da justiça/lei e por fim, nos momentos finais, de (quase) redenção e no diálogo que dá título à história.

A arte de Brian Bolland é igualmente rica e retrata com beleza e objetividade os fatos narrados. As expressões faciais, a perfeição da anatomia, a caracterização (cenários, indumentária, enquadramentos) é perfeitamente desenvolvida para que os constantes saltos no tempo, que entrelaçam os dados apresentados, sejam perfeitamente percebidos pelo leitor, sem atropelos nem qualquer situação forçada.

Começar a (re)ler essa edição, depois de ter assistido Cavaleiro das Trevas no cinema e lembrar da memorável caracterização de Heath Ledger como Coringa, significa (por uma ínfima fração de segundo) duvidar que algo de bom e diferente possa ser feito com o palhaço do crime, mas ao começar a jornada que Moore preparou, logo se vê em que fontes os roteiristas do filme beberam para chegar a um resultado tão bom e com certeza A Piada Mortal é uma delas.

Destaque para as cenas de tortura do Comissário Gordon nas mãos de uns anões bizarros, para a melancolia do Coringa ao repassar sua vida e para a reviravolta na vida de Bárbara Gordon (não vou entrar em detalhes pra não estragar a leitura de ninguém).


*Valeu Guilherme!

Matrioshki - A Lei do Cão Belga

0 Comments | This entry was posted on abr 14 2009

Acabou de estrear no Telecine Action a 2ª temporada de Matrioshki, a série belga que retrata o submundo do tráfico humano na Europa. A primeira temporada foi marcada por um clima depressivo, por conta do clima gélido das ex-repúblicas soviéticas, da vida miserável que o povo daqueles países leva e pela total falta de noção das meninas de lá, que tem uma ingenuidade e uma falta de perspectiva inversamente proporcionais à sua beleza, o que atrai os traficantes e aliciadores aos montes.

O interessante da série, além do retrato da (pouca) qualidade de vida de parte desses países, é a caracterização naturalista da máfia da prostituição: sem falso glamour, sem a lendária “honra dos bandidos” (que contaminou vários filmes de máfia após O Poderoso Chefão) e acima de tudo, sem esperança ou finais felizes fabricados.

Não quero aqui fazer apologia do pessimismo, mas é interessante ver alguma produção que mostra, mesmo que de vez em quando, que as pessoas de bem também perdem, porque é isso que se vê todos os dias (principalmente aqui no Rio de Janeiro): gente honesta e trabalhadora sofrendo nas mãos de bandidos (de diversos tipos e cores) sem opções de fuga ou compensação.

Matrioshki traz meninas sem futuro em países como a Lituânia, Rússia e outros, que são convidadas para testes de “dança” e acabam escolhendo sem saber o caminho dos prostíbulos de países distantes. Os passaportes são confiscados, os contratos são escritos em uma língua que nenhuma entende e os aliciadores as submetem a humilhações físicas e sexuais antes mesmo de chegarem ao destino e serem entregues aos “clientes”.

A série é sucesso de crítica na Europa e suas imagens são utilziadas pela Anistia Internacional em campanhas de combate e prevenção ao tráfico internacional de escravas sexuais.

O roteiro parece sádico, mas na verdade é uma análise crua de como se dá o processo de aliciamento de meninas para essa atividade. As cenas são ásperas, secas, não há trilha sonora para antecipar cenas chocantes, nem lágrimas para que o observador se envolva com alguma personagem. Também não há suspense bobo antes nem pausa dramática após. Só os fatos, as escolhas e as consequências.

Algumas meninas querem voltar e não sabem como, outras aderem ao novo estilo de vida. Algumas fazem pelo dinheiro para a família pobre, outras por sonhos de consumo de uma realidade capitalista desconhecida. Aos poucos as personagens vão sendo construídas de maneira simples, em poucos mas emblemáticos diálogos.

A segunda temporada também traz uma mudança de cenário e de elenco, pulando 3 anos após a temporada 1, mostrando que os roteiristas acreditam que um bom argumento rende boas histórias, não improta o elenco anteriormente construído. E acertam: algumas caras e fatos conhecidos são citados, mas o que importa mesmo é o contexto, as situações extremas (pobreza, violência e maldade) a que todos se submetem.

Parece que a falta aos autores uma fagulha que seja de romantismo, dada a alta taxa de mortalidade da série, mas o mundo da máfia não deve mesmo ser feito de pessoas fofas.



Telecine Action
Terça-feira
00h

http://www.matroesjkas.be/